sábado, 3 de março de 2012

Cap 1




Ainda me lembro de quando começou, o que soa bastante incoerente, porque não lembro de minha infância. O cheiro era diferente; É como se este frasco de perfume fosse de uso único. As cores eram mais vivas, a perfeita ordem transbordava em tudo e, como um lindo espelho, refletia a perfeição. E aquela sinfonia natural? Que compositor criara a música, não aquela música, mas, pergunto, A música? 
Era um prazer ver o trabalho de minhas mãos servindo ao seu propósito maior, fazendo parte ativamente de toda aquela arte, e não apenas as mãos, mas também com a boca, embora isso tenha exigido uma criatividade sobrenatural. Sabe o melhor? A beleza não vinha de mim ou do meu trabalho, eu apenas refletia, afinal, as cores são reflexos da luz, de modo que sem a luz não são nada.
Mas toda aquela cor e todo aquele cheiro foram de alguma forma, eu não diria melhorados, de modo algum... na verdade o ambiente não mudou, eu é que fui aperfeiçoado, muito embora sem falhas. Pois para ser complementado, não precisa estar em falta, basta  estar limitado. E assim eu era, embora inteiro, minha inteireza não supria toda a demanda. Não se podia ver muito em mim, embora se pudesse ver perfeitamente. Era necessário uma extensão de mim mesmo, igual, mas diferente.
Eu dormi... e foi um sono tão profundo que meus sonhos se concretizaram. Eu que queria deixar de ser só um, acabei por me tornar um só, mas não sozinho. Ela apareceu, reencontrou-me, pois, era parte de mim sendo alguém e viria a ser alguém que é parte de mim. Assim como fui tirado da terra para trata-la, ela fora de mim. Dividir para multiplicar, essa é a grande proposta. 
Além das cores, sons e aromas, nós refletimos intenções e atitudes. Nosso relacionamento não é baseado em intuição ou presságios como com a chuva, mas em decisões pessoais que afetam o outro. E se há ideias diferentes, elas se completam e sua síntese expressa nossa unidade complementadora.
“E viu Deus tudo o que fizera, e eis que era muito bom.” 

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