O desejo
é um sentimento incrível. Ou seria uma vontade? O desejo é uma consequência
natural da liberdade, ao passo que a limita e direciona. Sei que sua origem
está em mim, eu quis ter o que era proibido por meio de algo que eu não podia
tocar para ser o que eu não conseguiria. Desde a intenção à realização, era
tudo ilícito. Eu era capaz de fazer, só não de carregar a culpa por ter feito.
Quando a
barreira foi, enfim, rompida, eu não já seria responsabilizado, não sozinho. No
fundo, acho que esperei. Tive coragem o suficiente para ser o primeiro dos
covardes e mesmo assim não fui mais corajoso para temer ao Senhor, mais valeria
agradar a Deus que aos homens.
A proposta era interessante,
muito chamativa, como o fruto, também parecia especial, tinha um brilho
diferente. Éramos livres para agir contra quem nos deu a liberdade. A sensação
que outrora era de completude, por Ele e consequentemente com ela,
agora não mais existia. Agir contra a vontade do Eterno é eternamente
ineficaz.
Agora tratar a terra, de onde fui
feito, é difícil e doloroso, tratar minha mulher, relacionar-me com ela, que
foi feita de mim, também tornou-se doloroso. O relacionamento que
espelhava perfeita e largamente a glória de Deus agora está embaçado, opaco,
ainda refletindo a glória de Deus, mas deformada pelos nossos defeitos. As
cores, sons e aromas se tornaram desbotados, desagradáveis. Agora meus
defeitos, rebeldias e fraquezas, estão todas retratadas em deus, à nossa imagem
conforme a nossa semelhança.
Não
entendo porque tivemos que ser os primeiros, não queria ter sobre mim tamanha
responsabilidade, toda a humanidade seria afetada pela minha escolha. Você acha
que não é justo ser culpado do meu erro? Acha mais justo do que isso o fato de
minha escolha ter acarretado tantos prejuízos? Pior que isso só o fato de saber
que eu poderia ter obedecido, eu poderia ter continuado com o perfeito
relacionamento.
“O Senhor Deus fez
roupas de pele e com elas vestiu Adão e sua mulher.”

